Archive for the 'preconceitos' Category

viva os pré-conceitos

Ricardo Moraleida August 19th, 2006

Situação:
Você conhece a pessoa numa boate. No meio daquela conversa mole você percebe que o resumo da apresentação do(a) fulano(a) é:


“Eu tenho uma banda de rock”
“Eu sou mecânico”
“Eu assisto a filmes pornôs”
“Eu sou de direita”

ou:


“Eu gosto de jazz”
“Eu estudo odontologia”
“Eu gosto de filmes estrangeiros”
“Eu vou votar na Heloisa Helena”

—–
Acho o máximo como é possível associar qualquer pequena parte do comportamento de uma pessoa a todo um estilo de vida imaginado por seus interlocutores. De fato, os pré-conceitos movem o mundo.

Geramos pré-conceitos a cada experiência vivida. É a forma que nosso cérebro tem de assimilar as coisas que vemos todos os dias e, montando uma por cima da outra, tirar as conclusões sobre todos os assuntos. Ou seja, pré-conceitos nada mais são do que as conclusões pós-experiências.

O perigo todo está na transformação do pré-conceito em preconceito. Isso acontece quando achamos que já temos informações suficientes pra formular opiniões sobre algum assunto específico. Desligamos o gerador de pré-conceitos e começamos a disparar nosso preconceito formado por aí.

Não sei porque eu escrevi isso aqui. Mas acho que é uma reflexão que vale a pena ser feita. Além do mais, o blog é meu, e como (quase) ninguém me visita, eu escrevo o que eu quiser!

Por mil demônios, Bill!

Ricardo Moraleida August 18th, 2006

disse no post anterior que ia escrever um agora continuando o pensamento do ônibus, mas vai ficar pra depois porque hoje eu encontrei um assunto mais importante pra escrever.

O fato básico que motiva essa coluna é: “Eu gosto de Matanza”. Quem? Bom, Matanza é basicamente uma banda de Heavy Metal melódico e escrachado. As letras da turma, todas ambientadas numa espécie de velho-oeste moderno dos EUA, se resumem em: beber, brigar, matar e morrer, (não necessariamente nessa ordem) e - sempre - achar graça disso tudo.

Mas aí quem fica sabendo dessa história me pergunta: “Mas você gosta disso?” (com aquele “disso” bem nojento). Bom… gosto não, adoro! Simplesmente porque os bacanas do Matanza incorporam o anti-estereótipo que muita gente morre de medo de existir na vida real: são ao mesmo tempo feios, sujos, bêbados, legais, engraçados e o pior: inteligentes! Os caras são capazes de pérolas que misturam Iron Maiden, Chitãozinho e Xororó e Gabriel Garcia Marquez no melhor dos mundos irreais:

“Ela roubou meu caminhão
Ela escreveu dizendo que não me agüentava mais
E foi embora com meu caminhão
(…)
Só me pergunto o que é que aconteceu
Ela ter ido embora tudo bem eu não tô nem aí
Perder meu caminhão foi que doeu”
(Ela roubou meu caminhão, do disco Santa Madre Cassino)

“Primeiro dia fora da cadeia estadual
Ela que eu encontro bem na porta a me esperar
Num conversível com motor ligado / Que acabara de roubar
(…)
Tanto tempo tinha que eu não via um pôr-do-sol
Melhor seria sem tanta sirene atrás de mim
(…)
E mesmo com a estrada bloqueada
Ela não pára de sorrir”
(Mesa de saloon, do disco Santa Madre Cassino)

e são capazes de contar histórias inteiras de ficar de boca aberta como em “Maldito hippie sujo” e “Quando bebe desse jeito”, ambas do disco “Música para Beber e Brigar” - aliás, com um título desse não precisava falar mais nada… .rs.

Conclusão:
E daí se os caras tão pouco se f** pro politicamente correto? Eles são bons e souberam, em dois discos, ilustrar um ambiente tão distante do nosso de forma tão pitoresca que (os puristas que me perdoem) me veio a comparação justíssima com GGMarquez… Contar uma história surreal já não é tarefa das mais fáceis. Fazer isso em poesia e ainda jogar guitarras à toda em cima, é de se laurear!

tudo que a gente não sabe sobre os outros…

Ricardo Moraleida August 17th, 2006

Pois é… depois de flertar com a idéia na despedia da Pri na segunda-feira e conversando ontem com a Carol, resolvi que ia mesmo voltar a me aventurar na internet… Mesmo depois de ter jurado não mais tentar… Mas quem se importa com o que eu jurei pra mim mesmo né?? hehe…

Resolvi que ia escrever um blog e que ia ter como ponto de partida as pessoas, as coisas e as situações que eu vejo nos 4 ônibus que eu pego todos os dias, mas que o blog estaria assim, digamos, aberto a contribuições de outras partes do meu cotidiano. Passei o dia pensando sobre que diabos eu poderia escrever já que todas as bizarrices que eu vejo todo dia já se tornaram comuns pra mim.

E é aí que entra meu último ônibus de hoje. Depois de 50min dentro do terceiro, desci no ponto e o outro já estava lá: que felicidade quando isso acontece, não? Nada de esperas, nada de ficar na rua de bobeira olhando pro nada e esperando aparecer aquela nave azul brilhante com setinhas também azuis e curvilíneas nas laterais. (Há que se dizer: o povo do BHBus é bom de marketing mesmo… só de chamar BHBus e não BHÔnibus já dá outro status pra coisa…) - mas divago.

Entrei e, como sempre, dei aquela scaneada básica nas pessoas pra sacar os melhores lugares pra se ficar em pé sem incomodar ou ser incomodado por alguém. Normalmente o melhor lugar é a roleta, onde existe uma linha imaginária que separa quem está dentro e quem está fora do seu raio e que, fora os embarques e desembarques, é quase sempre o lugar mais livre do ônibus. Bem, estava eu parado na roleta quando de repente me chega um estranho e invade o tal espaço imaginário. Literalmente colou em mim com aquela ânsia de quem quer passar logo pra descer no próximo ponto. Eu já pensei: “pô, podia ter passado antes né? Os lugares da frente são reservados…” Mas me abstive de falar qualquer coisa… Ainda estava pagando e dei um jeito de passar o quanto antes, com a carteira ainda na mão, cedendo o espaço reservado na roleta para o apressado. Me encostei na barra, pra terminar de guardar a carteira na bolsa e ajustar o volume do discman, porque ônibus sem música é o fim da picada… De repente, um cutucão. E outro, e outros aumentando a velocidade. O sujeito ainda não tinha passado… putz… Bom saí de perto da roleta e fui andando em direção ao fundo do ônibus: “dá licença?, com licença?” aquela gentileza urbana básica. E quando já tava me acomodando mais ou menos no centro do veículo, vi lá no fundo 2 lugares vazios. “Com tanta gente em pé, 2 lugares vazios? Tem alguma coisa estranha…” Resolvi ir conferir. E não é que quando eu tava pedindo licenças de novo o sujeito me cutuca de novo. “P****, vc não desceu ainda?”, penso. Mas simplesmente saio na frente andando, e o sujeito atrás de mim. Cheguei, olhei e nada. Acho que era sorte mesmo. Sentei na última cadeira do ônibus, em cima do motor, na janela. E o sujeito vem e senta do meu lado…

A essa altura eu já tava indignado. E eu não sou de ficar indignado. Me concentrei na música e vamos seguindo viagem. Faltam só uns 15min pra eu chegar em casa… De repente o distinto rapaz, que tava carregando uma pasta de curso, tira de dentro uma folha com aqueles gabaritos de prova de concurso público e começa a rabiscar. Rabisca, rabisca, rabisca e eu nada de entender o que ele tava fazendo. “Será que tá praticando a assinatura? Não… tá meio velho pra isso. Será que ele é grafiteiro? Não, além de estar meio velho, grafiteiro escreve em folha branca e não em folha coalhada de outras coisas em vermelho. Será que tá psicografando alguma coisa? Não… melhor não…” o pensamento voou e eu não descobri o que era. Pra tentar saber, comecei a investigar a aparência do sujeito. Primeira coisa que eu notei: Camisa polo laranja, calça de tactel preta, mocassim preto e, tchanananam: meias esportivas brancas… Dei aquela estremecida: ele é office-boy. Mas nada grave. Até que eu vi a quase-barba não-feita, o rosto cheio de espinhas e a unha grande do mindinho da mão direita “o horror, o horror!!”. Cultivada com carinho e já com uns 3 centímetros…

Meu medidor de preconceito quebrou os recordes mundiais da categoria…

Cacilda. Como a gente é besta… vai ver o cara até um sujeito legal… Mas quem quer descobrir? (gancho pro meu próximo post, que deve sair amanhã…)

e a pergunta que não quer calar: “QUE PRESSA ERA ESSA MEU AMIGO??” eu hein…

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