Ricardo Moraleida December 4th, 2006
Hoje à noite, na volta para casa, me peguei pensando em como a gente gosta de forçar a barra das coisas. Me veio, a princípio, como uma característica própria do brasileiro. No entanto, pelo meu total desconhecimento das culturas de outros países, não posso dizer assim que isso seja uma característica única nossa.
Mas se fosse, essa seria uma de que o brasileiro se ufanaria. Aliás, já o faz, mas por outro lado. O brasileiro é o dono do mundialmente famoso “jeitinho”, que uma vez me fez passar vergonha num evento internacional aqui em BH… caso para outro post.
O “forçar a barra” a que me refiro hoje é um pouco mais do que o uso do “jeitinho”. É toda uma categoria de comportamentos que envolvem usar desculpas para se passar por uma identidade que não se tem (ou se é), para ter uma atitude que não assumiria ou simplesmente para fugir da responsabilidade da aplicação do pensamento.
Exemplo nº1 ou: à la folie? pas du tout…
Ouço todos os dias a coluna “seus filhos” da Rosely Sayão na rádio Band News FM. Não por escolha, mas porque ela está na faixa de horário em que eu ouço a rádio (entre 6h30 e 7h35 da manhã, no trajeto casa/trabalho), e a coluna até que é muito boa. E na coluna de hoje ela falava sobre as viagens de comemoração de final do ensino médio e como essas viagens às vezes se tornam grandes pretextos para se “ir à forra”, “sair do normal” e “fazer besteira” com a desculpa de se livrar do “enorme peso” do Ensino Médio. —— Cá entre nós. Pode até ser que os alunos de escolas super-exigentes e de ponta precisem mesmo se despressurizar ao final da sua primeira jornada de 11 anos escolares. Mas será que é esse o caso dos nossos estudantes comuns do Ensino Médio? “Been there, done that”, diria o sábio. Compreendo, mas não concordo. Acho que a cultura poderia ser criada de forma diferente. Por que diabos a farra precisa ter a desculpa da despressurização? Só pra não carregarmos as culpas das maluquices cometidas? Isso, pra mim, é “forçar a barra”.
Exemplo nº2 ou: le malade imaginaire
A mesma Rosely dizia, há alguns dias, sobre o mito das crianças hiperativas. Sobre a diferença daquelas que realmente tem problemas clínicos diagnosticados como “hiperatividade” e aquelas que simplesmente fazem mais do que os que gostam de ficar o dia inteiro na frente da tv, do playstation ou do computador. O que me chamou a atenção nesse assunto era o exemplo da criança que ao ser chamada à atenção por estar fazendo bagunça, dizia: “não posso evitar, eu sou hiperativa”. —— Aprendeu desde cedo a “forçar a barra” para justificar seus atos. E assim acontecem com todas as coisas dessa chamada vida moderna: “não posso evitar, eu sou estressado / anoréxica / hipocondríaco / cleptomaníaco / etc”. Ora, não tapemos o sol com a peneira. Todas essas condições clínicas existem. Mas eu aposto meu salário contra o seu que menos da metade das pessoas que se declaram como tais são realmente portadoras das patologias em si.
Exemplo nº3 ou: la haine
Hoje mesmo, no mesmo ponto de ônibus que eu, estava um rapazinho que não passava dos 17 anos. Indumentária comum a qualquer adolescente e um grande sei-lá-o-que-de-pendurar-coisas no pescoço (parecido com esses cordões de crachás, mas beeem mais largo). Até aí, tudo bem… mas o negócio em volta do pescoço do rapaz tinha a nome de uma banda brasileira (o rappa?) e uma imitação do selinho de mau-comportamento que as bandas americanas adoram mostrar por aí. “Parental Advisory: Explicit Content”. —— Por alguns segundos, me perguntei que diabos aquele selo estadunidense (que pra mim é um grande símbolo de todo o falso-moralismo à là tradição/família/propriedade vivido nos EUA) tava fazendo no cordão de uma banda brasileira. Até que me bateu: se lá ele é usado como um simbolo de transgressão pelas bandas mal-comportadas, infelizmente, é natural que aqui ele seja copiado. Infelizmente porque a cópia simplesmente ignora o fato de que o Brasil não classifica suas músicas entre próprias e impróprias para as faixas etárias. Faz algo muito mais inteligente: deixa isso a cargo das famílias e pessoas com decisão de compra. Mas o brasileiro não. Força a barra pra se parecer com essa imbecilidade importada. Se a moda pega…
Exemplo nº4 ou: le placard
Hoje ainda ouvi no rádio um ótimo programa sobre o mercado publicitário que poderia muito bem ser chamado de “Comercial e Cia”. Mas os produtores quiseram que se chamasse “Comercial e Cia on radio“. Tá. Pra quê mesmo? Antes que me joguem pedras, eu sou o primeiro a defender alguns estrangeirismos que não tem ou simplesmente não precisam de tradução (empowerment, accountability, mouse, fax, marketing, etc), mas qual o objetivo de se trocar o “no rádio” por um pedante “on radio“? Ficar chique? Isso, pra mim, é forçar a barra. Como eu já disse, o programa é ótimo, mas tem um quadro chamado “Advertising Brasil”. Pelas barbas do profeta. Não podia ser “Propaganda Brasil”, “Publicidade Brasil”, “Marketing Brasil”?. —— Os publicitários, tão descolados, podiam passar sem essa, não? Se bem que são eles que criam aquelas aberrações do tipo: “é muuuuuuito fanta” ou “schrubbles” ou “fique bamboochaa”. I rest my case.
Forcei a barra? Talvez… mas é porque o errado sou eu… o BBB7 vem aí…